terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Extracto da crónica de Miguel Sousa Tavares

20/01/2015 Cem anos para trás
 
2 Mas a verdadeira gala dos 100 anos da FPF aconteceu três dias depois, em Penafiel. Aí, num jogo de futebol profissional da 1ª Liga do campeonato português, o Penafiel recebeu o FC Porto numa espécie de estrumeira de porcos, com algumas ervas à mistura, onde era suposto disputar-se um jogo de futebol. Esclareço, desde já, que não atribuo qualquer culpa ao Penafiel, um clube cuja história respeito e cujas limitações reconheço, sem esforço. Atribuo, sim, a responsabilidade a quem permite que, dos 18 clubes que disputam a 1ª Liga, dez, pelo menos, não tenham estádios com condições para se jogar futebol profissional: ou pelas dimensões reduzidas do campo ou pelo estado inaceitável dos relvados. Não vemos isso em nenhum estádio de qualquer clube, pequeno ou grande, dos principais campeonatos: Espanha, França, Itália, Alemanha, Inglaterra, Escócia, Holanda, etc. Mas só este fim-de-semana, e ao sabor do zapping, vi jogar futebol assim, sem quaisquer condições, em Setúbal, num campo curto e lavrado, e nos Barreiros, num campo igualmente curto e num relvado do mesmo tipo chapa ondulada. E reparei que, quer em Penafiel quer nos Barreiros, tinham sido inauguradas novas bancadas – que, embora nunca encham, fazem o orgulho dos dirigentes locais. É assim o nosso futebol profissional: bancadas a mais e relvados a menos.
Não sei se já alguém terá meditado na eventual existência de uma relação entre ambas as coisas, mas sei que é uma vergonha para a FPF que, ao celebrar cem anos, se tenha visto disputar um jogo em Penafiel em condições iguais ou piores das de há cem anos atrás. O que festeja Fernando Gomes?

3 Naquelas condições, o FC Porto fez o que os candidatos têm de fazer: desistir de tentar jogar o que sabem e lutar tudo o que podem. Foi, tinha de ser, um jogo de lotaria (que é o que, afinal, se pretende), mas uma prestação valente e muito profissional dos portistas. Neste aspecto, nunca será de mais destacar as tremendas exibições de Óliver e Jackson Martínez, cuja superior técnica anda a par com uma outra característica, essencial para se adaptar aquele quintal de lama e, em geral, essencial, como julgo, em qualquer grande jogador, hoje: a inteligência. Jackson, em particular, fez um jogo de uma classe, um profissionalismo e um exemplo de capitão absolutamente inesquecível. Em contraste e infelizmente (para mim, que sempre o defendi e sempre gostei dele), esteve a exibição de Ricardo Quaresma, igual à anterior, contra o Belenenses: esforça-se muito, de facto, mas apenas para si próprio e não para a equipa – seis hipóteses de cruzamento e não cruzou uma só vez; remates disparatados de todo o lado e em qualquer circunstância, sem sequer levantar a cabeça para ver se podia melhor servir alguém, insistência em fintas e habilidades condenadas ao fracasso num mar de lama, etc. O “síndroma Brahimi” parece turvar-lhe a cabeça…

4 Apesar das seis vitórias consecutivas após o desastre do Dragão, o FC Porto não conseguiu recuperar um único ponto ao Benfica. E, pelo que se tem visto, duvido muito que consiga recuperar os seis pontos até final. Eu sei que ainda falta muito campeonato, mas levo em conta vários factores. Em primeiro lugar, o facto de o Benfica apenas ter de se preocupar com o campeonato, dispensado que está do resto; em segundo lugar, reconheça-se, a capacidade da equipa de ser tremendamente eficaz a defender e a concretizar; em terceiro lugar, as ajudas externas preciosas a que já se viu que pode recorrer num aperto
(um aspecto mais que decisivo na obtenção das vitórias dos benfiquistas);
e, finalmente, a facilidade com que tantas equipas se põem a jeito para perder com o “Glorioso” como se tais derrotas fossem sempre inevitáveis e desprovidas de responsabilidades. A última data dessas equipas foi o Marítimo: foi chocante a falta de atitude competitiva com que o Marítimo entrou em campo, parecendo querer despachar rapidamente o assunto – o que conseguiu logo aos 18 minutos, quando o Benfica, até aí apenas preocupado em adaptar-se ao terreno lavrado, criou a primeira possibilidade de golo e o pequenino Salvio, sem apoio algum, fez o que quis da jogada, com o calmeirão do central do Marítimo assistir e aplaudir. E assim foi daí em diante, uma defesa de matraquilhos, estática e alheia, e um ataque reduzido a um avançado, aliás bom, mas que passou o jogo a fugir diligentemente da bola. Um passeio, de passadeira vermelha estendida. Veremos para a semana se é assim que o Marítimo irá também receber o FC Porto.

Mas Miguel é evidente que não… ! Principalmente porque os senhores do apito normalmente, mas esta época mais em evidência, protegem os jogadores benfiquistas e obrigam disciplinarmente os adversários a jogarem macio contra o Benfica. As meninas encarnadas não podem ser rasteiradas, abalroadas, machucadas, impedidas de chegar à bola, porque se isto eventualmente acontecer entram em cena as respectivas cartolinas amarelas ou vermelhas para refrear os ânimos e advertirem os contrários que ousarem infringir as regras que protegem os jogadores encarnados. Já contra o FC Porto, é muito diferente, ou seja, contra os jogadores portistas, tudo é permitido aos adversários: pisar os pés, rasteirar, abalroar, machucar os jogadores de azul e branco. Por isso é evidente que a atitude dos maritimistas vai ser muito diferente.
 
in abola

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