terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Nortada - Miguel Sousa Tavares

06/01/2015 - Miguel Sousa Tavares – Se ao menos o Benfica jogasse qualquer coisinha…

1 – Se ao menos o Benfica jogasse qualquer coisinha, um arremedo de futebol capaz, um cheirinho de campeão, quinze minutos seguidos de futebol a sério de vez em quando, não teríamos esta sensação de que nada justifica o primeiro lugar destacado que ocupa no campeonato (classificação geral da Liga), quase a terminar a primeira volta. Nada, que não somente a sorte irrepetível que teve no jogo do Dragão (onde apenas foi defender com todos no seu meio campo, de princípio a fim), ou o instinto sádico com que mata jogos que não chega a disputar a sério, ou – o que já tem mais que se lhe diga – as ajudas determinantes que invariavelmente recebe das arbitragens em quase todos os jogos do campeonato. Veja-se o mais recente desfecho em Penafiel, num jogo de vitória fácil e previsível, pois se o Benfica estava desfalcado, o Penafiel também estava. O Benfica chega ao 0-1, aos 37 minutos, na única ocasião de golo criada até ao 0-2, acontecido ao minuto 78. Na segunda parte, entra por baixo e vê o Penafiel perder-lhe o respeito, chegando mesmo a um golo, bem anulado mas por um offside curtíssimo.
Logo a seguir, Maxi Pereira tem uma daquelas suas entradas a varrer as pernas ao adversário, justificando um amarelo no limite do vermelho, pois que, além da dureza da falta, Mbola já tinha passado e a jogada era perigosa – não levou nem vermelho nem amarelo. Minutos depois, aos 65, numa banalíssima disputa de bola na lateral, a 70 metros da baliza do Penafiel, Tony dá um ligeiro puxão na camisola de André Almeida e o árbitro mostra-lhe o amarelo, sabendo que era o segundo e que assim resolvia o jogo para o Benfica. E, volvidos três minutos, quando Rabiola vai ficar isolado à entrada da área do Benfica e em posição frontal, lá vem o bom do Maxi e enfia-lhe um empurrão por trás, derrubando-o. Desta vez e a custo, Paulo Baptista venceu a aversão dos nossos árbitros em mostrar cartões ao bom do Maxi, mas, contra o que as regras dizem, ficou-se pelo amarelo e não pelo vermelho directo. Ou seja: em duas vezes que deveria ter sido expulso, Maxi não o foi; e, numa vez em que não deveria ter sido, foi – o Tony. Em vez de ter ficado a jogar com um a menos a última meia hora, o Benfica ficou a jogar com um a mais. Não sei, ninguém sabe, se o desfecho teria sido diferente, tivesse o árbitro feito o que devia. O que sei é que esta já é a sétima ou oitava vez que esta pergunta se coloca em jogos do Benfica esta época. E sempre, sempre, no mesmo sentido.

2 – Poderão dizer-me que também o Porto ganhava por 1-0 em Barcelos quando, aos 37 minutos, o adversário ficou reduzido a dez e que isso facilitou a goleada. Se dúvida que sim, mas com três notáveis diferenças: primeiro o Porto justificou, pelo que jogou, os 5-1, enquanto que o Benfica nada fez que justificasse os 3-0; segundo, nenhum jogador do Porto deveria ter sido expulso, ao contrário do Maxi; e terceiro e principalmente, enquanto que o jogador do Penafiel nada fez que justificasse a expulsão, de perto ou de longe, o do Gil Vicente fez o que podia para ser expulso.

3- Vinte e três mil adeptos a assistir ao treino de Ano Novo no Dragão é um número impressionante e que atesta o sucesso de uma iniciativa original e que já entrou nas tradições do clube. O FC Porto terminou o ano de 2014 marcado pelas derrotas caseiras contra Sporting e Benfica, uma que lhe custou a Taça, outra que lhe pode ter custado o campeonato.
Essa é a pesada herança que transita para 2015, em contraste com a parte boa: ter, sem dúvida, o melhor plantel do campeonato e o seu melhor em vários anos, jogar o melhor futebol à vista, e ter fundadas esperanças de pousar os pés nos quartos de final da Champions.

Depois de meses gastos naquela experiência sem sentido de mudar radicalmente de onze em todos os jogos (e que, por exemplo, custou a eliminação da Taça, contra o Sporting), Lopetegui caiu no extremo oposto de nunca mexer na equipa, mesmo quando tal seria recomendável pelas fracas prestações de alguns – com é o caso evidente de Herrera. Mas, mesmo assim, é bem melhor a emenda do que o soneto – que era absolutamente incompreensível. E pode ser que agora, com a saída temporária de Brahimi para a CAN, Lopetegui dê mais oportunidades a Quintero, recupere Ruben Neves e reconheça finalmente o valor que tem Ricardo Pereira. Acredito sinceramente que os portistas ainda vão ver muita coisa boa para a frente e também acredito que o Benfica não vai continuar eternamente a ser empurrado pelos árbitros. Já chega!

4- Depois de uma semana de “profunda reflexão”, “recolhimento familiar” e “paz natalícia”, Bruno de Carvalho meteu a viola no saco – literalmente. No seu braço de ferroa com o treinador, foi derrotado em toda a linha no seu terreno predilecto – o dos sócios – e no terreno onde a autoridade do presidente não pode ser posta em causa – junto da equipa. Outro, que não ele (e não muitos também, diga-se) tiraria as consequências necessárias e ia à vida. No seu caso, porém, quase sou capaz de apostar que em breve o ouviremos a dizer que tudo não passou de uma inventona da comunicação social, manipulada pelos adversários do Sporting. Já faltou mais e o discurso já foi ensaiado nesse sentido.

Mas para trás ficam coisas que ninguém esquecerá tão cedo: as bofetadas de luva branca que levou de Patrício e de Nani e a lição de liderança que lhe deu Marco Silva. Em vinte dias que durou a tempestade criada pelo presidente, a equipa de “jogadores indignos da camisola” e do treinador que “não assume responsabilidades”, eliminou mais um adversário no caminho aberto para o Jamor, ganhou dois jogos importantes para o campeonato e, contrariando a vontade do presidente (numa atitude única nos anais do Sporting), até mandou a Guimarães a equipa perdedora que o presidente determinou, mas que, afinal, ganhou o jogo para a Taça da Liga. E essa foi a maior bofetada de luva branca que levou. Se contava com derrotas para se ver livre de Marco Silva, roubaram-lhe o pretexto; se contava com os serviços jurídicos para inventarem uma justa causa de despedimento e não ter de indemnizar o treinador, apenas se desqualificou publicamente; se contava com o apoio dos sócios ou dos notáveis para o apoiarem na sua guerrilha institucional, puxaram-lhe o tapete; se julgou que os arregimentados colunistas fariam por ele o trabalho sujo e convenceriam a opinião sportinguista, só conseguiu extremar contra si a gente séria, acabando a ter de se demarcar do terrorismo estratégico de José Eduardo. Foi tudo absolutamente lamentável. Agora, para tentar recuperar a autoridade perdida, vai lançar mão do método Vale e Azevedo de manutenção do poder, que é convocar uma daquelas Assembleias Gerais onde só os desocupados e inúteis de serviço comparecem para prestar vassalagem a quem os convoca.

De facto, um líder é-o naturalmente e não por auto-declaração. A autoridade não se afirma, reconhece-se. Há um ano atrás, exactamente, morreu alguém cuja autoridade e prestígio no mundo do futebol nunca teve de ser reclamada nem anunciada pelo próprio, porque se impunha por si mesma e até aos adversários: Eusébio, de seu nome. A cidade de Lisboa, muito justamente, deu ontem o nome de Eusébio a uma avenida. Posso garantir-vos que tal jamais sucederá com Bruno de Carvalho.

In abola


Aproveito a deixa do Miguel Sousa Tavares para comentar também eu as arbitragens favoráveis aos encarnados e contestar a lenga lenga do Gobern, com a qual estou evidentemente em desacordo, que o FC Porto também já foi beneficiado nos jogos com o Braga e Rio Ave. Mesmo admitindo que os portistas tenham sido beneficiados nos jogos acima mencionados, quero lembrar que os Dragões têm sido prejudicados em todos os outros restantes jogos. Só para citar dois dos exemplos mais flagrantes: os jogos com o Boavista no Dragão e em Guimarães.
Conclusão: a grande diferença é que o FC Porto é esporadicamente beneficiado enquanto que o clube da águia é sempre beneficiado; disciplinarmente os jogadores encarnados são sempre protegidos e os adversários sancionados; mas mais, em todos os jogos na dúvida: se é ou não offside, decide-se a favor dos encarnados.
E, é bom de ver porquê: onde está sediada a maior parte da imprensa desportiva portuguesa
(afecta ao Benfica) que influência decisivamente os árbitros? Em Lisboa: RTP, SIC, TVI, SportTV; jornais A Bola, Record, Correio da Manhã...etc...etc; com a agravante dos órgãos de poder da FPF e da arbitragem estarem nas mãos dos jagunços benfiquistas...!

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