terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Pedro Marques Lopes - Opinião

27/01/2015 - Pedro Marques Lopes, um ser humano esclarecido, responsável e portista de eleição!

Na próxima segunda-feira, Angela Merkel vai homenagear o seu fiel escudeiro: Durão Barroso. Ninguém levantaria o sobrolho se daqui a uns tempos Passos Coelho fosse alvo de um agradecimento público alemão similar. Temos assim que um dos países mais prejudicados pela solução alemã para a crise tem dois dos seus mais proeminentes cidadãos como maiores defensores dessa mesma solução.

Não duvido das boas intenções de Passos Coelho ou de Durão Barroso (deste senhor com algum custo, porém), mas que foram delegados de interesses que vieram a revelar-se profundamente nefastos para o seu país não restam dúvidas.

E não foi por qualquer tipo de convicção político-ideológica que estes dois cavalheiros embarcaram na nau alemã. O caminho que até agora foi prosseguido não teve origem em qualquer tipo de pensamento de centro-direita ou, sequer, aparentado - basta ver que a coligação que governa a Alemanha junta o centro-esquerda e o centro-direita -, era, e ainda é, uma política que servia os interesses da Alemanha, baseada em receios alemães - a célebre hiperinflação pré-guerra -, originada em argumentos morais, como a suposta preguiça das comunidades do Sul. Rigorosamente nada que ver com opções de direita ou esquerda.

O plano Draghi está longe de garantir o fim da crise no espaço europeu, vem com muito atraso e ainda falta saber se veio a tempo de evitar a deflação e garantir um ainda maior agravamento do estado da economia, mas é uma inversão no caminho até agora seguido. É preciso que o dinheiro chegue à economia, que o investimento - privado e público - recupere, que o consumo aumente e que termine, por exemplo, a asfixia fiscal. E é bom que ninguém esqueça: se não houver, no caso português, e outros, uma renegociação séria da dívida, o plano terá um alcance muito limitado.

A anterior receita falhou e, mesmo a nova resultando, as consequências do que tivemos nos últimos anos perdurarão por muito tempo. A destruição foi brutal. Faliram-se setores inteiros da economia, atingiu-se um nível de desemprego chocante, os empregos criados são pagos miseravelmente, emigrou quase 8% da nossa população ativa, os serviços públicos estão em risco iminente de colapso, o investimento desapareceu, passámos a suportar a segunda maior carga fiscal da Europa - o maior crescimento de impostos de sempre -, diminuiu-se dramaticamente os padrões de vida da classe média ou, talvez melhor, quase se acabou com esse estrato socioeconómico que é a base de qualquer democracia.

Para quê? O que mudou para melhor na nossa comunidade? É verdade, as exportações melhoraram, o turismo cresceu. E essas evidentes melhorias foram consequência de alguma reforma estrutural, de alguma mudança de paradigma, de algo associado à política prosseguida? Claro que não. E mesmo que tivessem sido, o balanço era dramaticamente negativo e isso nem carece de explicação.

É aflitivo ouvir falar da necessidade de não parar as constantemente cantadas reformas estruturais. Mas quais? A produtividade aumentou? As empresas estão mais capitalizadas, têm menos barreiras burocráticas? O nosso nível de habilitações está a crescer? As instituições estão mais fortes? A desigualdade diminuiu? A nossa Justiça está melhor? A nacionalização de parte da economia pelo Estado chinês é algo de benéfico?

Não, não é possível perdoar toda a destruição. Não é possível encarar quem impôs esta política e , sobretudo quem a apoiou, a aplaudiu de pé e até quis ir além dela. Não é possível aceitar que, pronto, "desculpem lá," houve um engano. Mas o que não é mesmo suportável, o que ofende, é dizer que se acha muito bem este novo caminho na política europeia. O primeiro-ministro não pode dizer com toda a calma que a "decisão é bem-vinda", que nunca disse o contrário. É mentira, é uma redonda e vergonhosa mentira. Então não foram este tipo de medidas que levaram à guerra? Que "se o BCE tivesse por função resolver o problema, imprimindo mais euros, seria um péssimo sinal que nós daríamos a toda a gente"? Que o BCE não podia tomar estas medidas?

Um bocadinho de vergonha, por favor. Tratou-nos mal, senhor primeiro-ministro, enganou-se e fez muito mal ao país, mas, ao menos, não nos goze.

2. Paula Teixeira da Cruz disse ontem, ao Expresso, que fala para o telefone como se fosse para um gravador. Como assumo que não pensará estar a ser investigada por nenhum crime grave, temos uma ministra que não está preocupada com a violação de um direito básico numa democracia. Dá-se ainda que a senhora tutela a Justiça, ou seja, sendo a sua função criar as condições para que a Justiça funcione de modo correto, fico também a saber que não quer saber de, sequer, tentar exercer as suas funções.

É uma entrevista exemplar, Teixeira da Cruz defende a inversão do ónus da prova e mostra indiferença perante o direito à privacidade.

Vamos assim andando com uma ministra da Justiça cujo principal problema nem é a sua evidente incompetência, é não perceber nem conhecer os princípios fundamentais de um Estado de direito. Nada que não soubéssemos, verdade seja dita.


in DN

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