terça-feira, 7 de outubro de 2014

Excerto da crónica do Miguel Sousa Tavares

07/102014 - Miguel Sousa Tavares
2 – Como disse e com razão Lopetegui, O Sporting de Braga foi o adversário mais difícil que o FC Porto teve de enfrentar este ano – ainda por cima, tirando partido, nos últimos 15 minutos do desgaste físico que, pela primeira vez, senti na equipa portista. O que dá que pensar, considerando que esta foi também a primeira vez que Lopetegui repetiu, o onze anterior.
E, por falar em repetições, o que me vem fazendo mais confusão é aquilo de que já falei algumas vezes: a ausência de atitude (não concordo), de vontade de agarrar logo no jogo, de que a equipa dá mostras quando começa a jogar – e que em Alvalade custou logo um golo aos 2 minutos e meia hora inicial de total alheamento do jogo. Parece que ainda ninguém explicou aos jogadores que os jogos também se podem ganhar no início. Depois, a insistência, como padrão de jogo, naquilo a que chamei “um futebol de eunucos”: a eternidade gasta em passes entre a defesa e o meio campo defensivo, bola sempre jogada para trás e para o lado, nenhuma jogada se desenvolvendo sem que a bola tenha dado duas voltas entre os quatro defesas, uma sensação de que o grande objectivo estratégico é ter posse de bola para com ela fazer…coisa alguma. É uma doença que, aos poucos se vai apoderando do espírito de cada jogador, contagiando até aqueles que, por natureza, têm um ADN de futebol ofensivo e não de marcha atrás, como Alex Sandro, Rúben Neves, Brahimi ou Óliver. Em Lviv, a perder por 0-1 e supostamente com pressa de ir para a frente, cheguei a contar 4 minutos em que a bola foi tracada lá atrás, entre os defesas e os médios, enquanto os jogadores ucranianos aproveitavam para descansar e esperar tranquilamente à entrada da sua área. E nos primeiros dez minutos do jogo contra o Braga, em que o FC Porto deve ter ultrapassado os 90% de posse de bola, nunca se aproximou sequer da área adversária e a primeira oportunidade de golo só surgiu aos 11 minutos e… para o Braga (em resultado, claro, de um passe falhado na zona nevrálgica do meio campo defensivo). Além de ser um tipo de jogo estéril, que irrita o público e quem gosta de futebol, que desperdiça um dos bens mais preciosos dos jogos, que é o tempo, é também um tipo de jogo que se vem revelando suicidário: em Alvalade foi um passe lateral errado de Rúben Neves que originou o primeiro golo do Sporting, na Ucrânia, foi um recuo defensivo de Óliver até à sua área que ofereceu o primeiro golo ao Shakhtar, e com o Braga foi um passe recuado de Brahimi. Dificilmente se entende como é que, tendo jogadores tão rápidos na alas e criativos no meio campo como Quintero


(Miguel, o Quintero é bom ofensivamente mas ajuda pouco defensivamente e além disso duvido que tenha os 90' nas pernas) 

e Óliver, como é que, tendo laterais de características ofensivas raras, o FC Porto renuncie deliberadamente aos golpes e contra-golpes súbitos e em velocidade, preferindo mastigar e ruminar longamente cada ensaio de ataque. Porque, por mais que ele proteste durante os jogos ou se declare insatisfeito depois deles, a verdade é que este tipo de jogo só pode acontecer por expressa vontade do treinador. Lopetegui é um treinador difícil de classificar, para um adepto portista. Todos gostam da sua pose e da sua personalidade. Todos concordam que escolheu muito bem quem queria para renovar a equipa. Todos concordarão também que lê muitíssimo bem o jogo, porque, quando mexe na equipa, é sempre para melhor (o que também leva, por outro lado, a questionar as escolhas iniciais). Mas parece ser igualmente um homem de ideias fixas – o que não é necessariamente mau, desde que elas estejam certas. A sua insistência no futebol de tiki taka, mal interpretado e mal aplicado ao caso da equipa que tem nas mãos ( estão a começar, Miguel), parece-me uma teimosia sem sentido, dispensando, por comodidade intelectual, a procura de alternativas mais adequadas à natureza da equipa e dos seus jogadores. E o mesmo se diga à sua dificuldade em estabilizar um meio campo de referência – nos nomes, no posicionamento, na missão que lhe cabe.
A insistência em Herrera, por exemplo, que ainda não sabe sequer onde se deve situar e o que deve fazer, sendo, jogo após jogo, um elemento sobejante e inútil, é outra coisa para mim incompreensível. (E só posso sorrir, claro, depois de ter andado aqui há mais de um ano a dizer que o Quintero é um jogador fabuloso, ver que foi a entrada dele, com o Shakhtar e com o Braga, que permitiu agitar o jogo e inverter o destino).

O Miguel tem um conceito negativo da estratégia de Lopetegui, na minha opinião, sem razão

1 – De notar que o plantel é muito jovem, além de que precisa de tempo para se adaptar ao clube, ao futebol português e de se conhecerem uns aos outros, se entrosarem, entenda-se, jogarem duns para os outros de olhos fechados. E é por este facto que o futebol da equipa é mais pausado. É preciso dar tempo para a equipa evoluir no sentido de aperfeiçoar os seus processos de jogo. Creio não estar ainda neste momento ao alcance da equipa jogar bem os 90 minutos.

2 – É preciso também notar que actualmente diminuiu a diferença de qualidade entre a maior parte das equipas do campeonato português, é por isso preciso ter em conta a qualidade, o mérito das equipas adversárias. Os portistas não jogam sozinhos.

3 – São várias as competições em que o FC Porto está envolvido e por isso há que rodar jogadores, que uns joguem para que outros descansem e recuperem. Isto são mais jogadores a entrarem em jogo e portanto a dificultar o entrosamento tornando-o mais lento.


3 - Bruno de Carvalho prossegue, todos os dias sem falhar, a sua cruzada pela moralização do futebol português – a qual consiste em insultar tudo e todos, excepto o Benfica (por cautela), e os tristes personagens que protege e que ocupam de assalto a Liga de Clubes, com recurso a meios e expedientes que são bem ilustrativos daquilo que seria a moralização do futebol levada a cabo pelo presidente do Sporting.
Se já não lhe bastassem os comunicados diários, as declarações que faz em todo o lado, as entrevistas a toda a gente que lhe estende um microfone e sempre sem se atrever a fazer-lhe perguntas a sério, agora inventou uma televisão do clube, em que, à boa maneira norte-coreana e venezuelana, o programa de referencia é a “Hora do Presidente”.
Abrigado nessas tribunas, onde pode dar satisfação ao seu desejo de protagonismo e exibicionismo, sem contraditório algum, ele não poupa ninguém: chama ladrões e persegue judicialmente os antigos dirigentes do clube; calunia as antigas glórias de Alvalade; chama “rufia” e multiplica os insultos ao presidente do FC Porto, desesperado por Pinto da Costa, infinitamente mais inteligente, nunca sequer se ter rebaixado a dar-lhe uma palavra de resposta. E, num delírio de auto-importância, declara até que só depois de o terem escutado (como se sabe, ele é escutado atentamente pelo mundo inteiro…) é que a UEFa e a FIFA consideraram proibir os fundos de jogadores – que ele só atacou para justificar o calote à Doyen, que o Sporting irá pagar com juros adiante. Se estivesse na política, Bruno de Carvalho já teria sido trucidado pelo quarto poder. Já teria sido esmiuçado o seu passado de brilhante “gestor”, já o teriam confrontado com o seu apoio aos assaltantes da Liga, já o teriam confrontado com as acusações que dispara aos quatro ventos e os disparates de diz pela boca fora, já o teriam interrogado – a ele, que persegue os antigos dirigentes por compras feitas – como foi feita a compra do tal Chikabala, aquele egípcio cuja fama de indisciplinado e mau profissional era mais antiga que a descoberta do túmulo de Tutankhamon. Mas como vive nesse território imune ao escrutínio jornalístico, que é o futebol português, ele lá prossegue a sua arruaça ao estilo Vale e Azevedo. Que é, bem o sabemos, o meio mais expedito para desviar as atenções dos fiascos que teme ter pela frente.

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